Divagações Desconexas de uma Madrugada Insone no Cinema
Bem, enquanto o filme não começa, decidi sacar meu bloco de rascunhos e começar a escrever. Estou aqui na sala dois do Espaço Unibanco para mais uma madrugada de cinema. Como de praxe, não faço a mínima idéia dos filmes que vão passar. Como de praxe também, não consegui nenhuma companhia para assistir os filmes comigo. Tentei todo mundo na minha agenda telefônica (o que não é lá muita gente, sempre prezei mais pela qualidade dos amigos ao invés da quantidade), mas ninguém estava a fim de vir e/ou já tinha outro programa muito mais interessante. Que saco! Vir ao cinema sozinho é algo muito chato. Da até desânimo. Principalmente quando se olha ao redor na outras poltronas e só se vê casais e grupos de amigos. Acho que sou o único lobo solitário por aqui. Ah, não sou não. Acabei de ver um senhor aparentando ter uns cinqüenta e poucos anos sentado na outra ponta da minha fileira e ele parece estar sozinho. Puxa, será que estou presenciando meu destino? Será que me tornarei um cinquentão insone que freqüenta o cinema de madrugada sozinho? Que deprimente! Acho que eu devia ter ficado em casa. A programação de filmes do SBT e da Globo costuma ser muito boa durante a madrugada. Acho que os programadores devem pensar: “Bem, não deve ter ninguém assistindo TV a essa hora mesmo, vamos exibir tudo que tem aqui de bom mas nunca deixarão a gente exibir de dia pois é muito perigoso que a grande massa veja essas coisas, vai que eles começam a gostar”. Mal eles sabem que existe uma aberração insone que assiste tudo até os primeiros raios de sol adentram pela janela da sala e ele ter que partir para a faculdade. Falando em faculdade, saindo daqui terei que ir direto pra lá, pra agüentar mais uma aula chata de Estudos dos Museus. Sabe, por mim podiam explodir todos os museus. E de preferência com a minha professora dentro de um deles.
Uma cena ao meu lado esquerdo me chama atenção. Uma garota está reclamando com o namorado que ele colocou muito sal na pipoca e está pedindo, quer dizer, mandando ele comprar outra. Pô! E não é que o cara foi! Ah, eu não iria. Não do jeito que ela foi mal educado com ele. E isso porque quando o cara chegou com os refris e a pipoca, ela já soltou os cachorros nele por ele ter demorado. Se ela fosse minha namorada, eu certamente já teria mandado ela pra puta que o pariu. Não tenho paciência pra este tipo de frescura (e talvez por isso meus relacionamentos não durem muito). Mas sinceramente, não sei como um cara consegue ficar com uma mina dessas. Tá, até que ela é bonitinha, loira, cabelos longos, lisos, olhos azuis (ou seriam verdes?), e tem um seios redodinhos, daqueles que possuem um encaixe perfeito na sua mão (ô maravilha!). Mas ela nem tem um sorriso bonito. Na realidade, ela nem sorri, tá o tempo todo com a cara emburada. E pelo pouco que pude ouvir da conversa entre os dois, ela também não parece ter um papo interessante. O que sobra a última alternativa pro carinha tá com ela, a mina deve fuder muito bem. Só isso pra explicar porque o sujeito aí se submete desta forma como um cachorrinho. Eu tenho um colega que diz que a única coisa ruim numa buceta é que a mulher vem junto. Eu concordo com ele… em partes. É verdade que na maioria das vezes a única coisa que um homem quer com uma mulher é sexo. Sabe, não dá pra resistir, faz parte da nossa natureza. Mas isso porque é super difícil encontrar uma mulher realmente interessante. Eu mesmo encontrei poucas durante toda minha vida (ou vai ver não estou sabendo procurar). Com uma mulher assim, ao invés de uma noite de sexo, eu iria preferir muito mais ficar horas e horas conversando. E eu a faria rir com minha toscas piadas, e me deleitaria com seu sorriso gostoso. Um sorriso cuja simples visão me alçaria a um estado tão sublime que eu nunca iria alcançar com nenhum orgasmo. É… eu sou um cara esquisito.
Atrás de mim tem três caras que ficam rindo o tempo todo. Até aí tudo bem. O foda é que ele ficam chutando as poltronas da frente. Que saco! Já estou até prevendo. Esses caras vão ficar zoando durante o filme inteiro e não vão me deixar assistir em paz. Sorte deles que eu sou um cara tranqüilo, se não eles iriam ver só. Mal eles sabem que eu estou armado com uma perigosa toalha. E sei utilizá-la muito bem. Que droga! As luzes aqui de cima se apagaram. As luzes laterais ainda estão acessas, mas a claridade delas não iluminam tão bem a página do meu bloco. Sem problema. Desde que comecei a registrar as minhas baladas para servir de fonte para as hqs do fanzine Open Bar que estou escrevendo com meus amigos Harriot, Rodrigo e Bernard, desenvolvi uma técnica toda especial pra escrever no escuro. O foda é decifrar o que eu escrevi depois.
Começo a prestar atenção na conversa do casal sentado a minha direita. Eles estão falando sobre os filmes que passaram no último Noitão do HSBC. Acho que eles são freqüentadores assíduos destas madrugadas de cinema, creio já ter vistos eles outras vezes. Ela diz pra ele que não entendeu Lost Highway, ao que o cara responde que também não. Bem, eu também não. E desconfio de que o filme não era pra fazer sentido. Porque se era, então tenho que assistir a esse filmes de novo, pois certamente a questão fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais está lá. David Lynch parece bem ser o sujeito que faria uma coisa dessas. Já até o imagino no momento que teve a concepção do filme: “Háháhá! Eu sei qual é a questão para 42, mas não a entregarei assim de mão beijada pras pessoas. Farei um filme completamente tresloucado e jogarei a questão lá no meio. Apenas aqueles com um nível de insanidade comparada a minha conseguirão descobrir qual é. Bwaahahahahahahahaha!”. O dois agora estão falando sobre o primeiro filme que passou lá, acho que nome era Caché, ou algo assim. Estou gostando da interpretação que a garota está fazendo da história, porque eu mesmo também não saquei qual foi a daquele filme - no entanto tenho certeza que a questão fundamental não estava nele. Mas eu também não curti muito ele (e pra piorar, não apareceu uma única ovelha em todo o filme). Pô, tô com mó inveja do cara aí do lado. Ele tirou a sorte grande, pois a mina dele parece ser preza. Bem diferente do paspalho a minha esquerda. A mina dele tá brigando com ele de novo, e agora nem deu pra sacar qual foi o motivo, se é que houve um motivo. Salta fora dessa meu camarada. Nenhuma buceta no mundo vale um aporinhamento desses.
Interessante! Tem uma mina na fileira atrás de mim, há minha esquerda, sentada quase na ponta, que também está escrevendo em um bloquinho de anotações como eu. E ela é bonitinha, cabelo preto, curto. Ela usa um daqueles óculos com armação preta, grossa, de aro quadriculado, bem comum entre as minas que costumam colar nas baladas indies aqui do centro de São Paulo. O que será que ela está escrevendo? Talvez ela esteja fazendo anotações sobre as pessoas no cinema como eu pra passar o tempo enquanto o filme não começa. Será que ela escreveu algo sobre mim como estou escrevendo sobre ela agora? Será que ela é escritora? Ou melhor ainda, roteirista de quadrinhos? Bem, cara de nerd ela tem. Huum… ela ta olhando na minha direção. Opa! O que foi aquilo? Será que eu vi bem, ela sorriu mesmo pra mim? Não…. eu devo estar imaginando. Caralho, mas que sorriso lindo. Não é o mais bonito que eu já vi, mas chega bem próximo. Vou olhar de novo pra tirar a dúvida. Porra! Não pode ser. Deve ser pegadinha do Malandro. Cadê as câmeras? Aquele sorriso não pode ser pra mim. Ainda mais depois que descobri que mulheres com sorrisos mágicos costumam distribuí-los indiscriminadamente. Algo que na minha modesta opinião elas não deveriam fazer. Elas deveriam guardar seus sorrisos apenas para aqueles que forem realmente merecedores de serem agraciados com a visão de tal encanto divino, e este reles mortal aqui certamente não é um deles. Sou apenas um cão vadio sarnento vira-lata vagabundo. Mas pensando bem… às vezes o sol pode brilhar até para os cachorros, não é? Huum, ela parece estar sozinha e a poltrona do lado direito dela está vazia. Acho que vou me sentar lá e falar com ela. Mas o que eu digo? “Oi! Eu me apaixonei por você ao primeiro vislumbre do seu sorriso e adoraria que você fosse a mãe dos meus filhos!” Indubitavelmente não. Muito piegas. Sem falar que eu nem sei se quero ter filhos. Bom, mas se for pra eles herdarem aquele sorriso, não há nem dúvidas. Saco! O que eu estou pensando? A mina não vai dar bola nenhuma pra mim. Mas que otário que eu sou, uma mulher não pode me lançar um sorriso que meu coração já vira do avesso. Mas e se ela realmente estiver dando bola? Pode ser que neste exato momento ela deva estar escrevendo sobre mim em seu bloquinho: “…ele também está escrevendo num bloco de notas como eu, talvez descrevendo as pessoas ao redor para passar o tempo enquanto o filme não começa. Ele até que é bonitinho, apesar de dentucinho, mas tem um cavanhaque sexy. Ele me parece ser o tipo de cara que sempre carrega consigo uma toalha, e que sabe utilizá-la muito bem. Nossa, fico até excitada quando penso o que ele pode fazer com ela.” Que foi? Qualé? O bloco de rascunhos é meu e eu deliro nele o quanto quiser, pô. No mais, não é impossível que ela tenha tesão por toalhas. Por que não? Já vi taras sexuais bem mais esquisitas. Tá! Chega de escrever baboseiras. Já decidi! Vou lá falar com ela antes que as luzes se apaguem completamente e o filme comece. Afinal, o que eu tenho a perder? Um fora a mais na vida dentre milhões não vai fazer a mínima diferença. E na pior das hipóteses, isso ainda pode render uma boa história. Certo. Fui!
Continua… (assim, é claro, que este escriba decifrar os resto dos hieróglifos que estão no seu bloco de rascunhos)

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