A Época da InocênciaO filme A Época da Inocência, dirigido por , é uma clara crítica a nova-iorquina do fim do , assim como o livro de do qual foi adaptado. A história do filme nos mostra como a hipocrisia era a filosofia de vida dessa classe social na qual as pessoas mantinham uma fachada de felicidade que muitas vezes escondia problemas pessoais, familiares e profissionais. Enfim, era uma sociedade de aparências.

Os personagens principais que compõem a trama do filme são Ellen Olenska, que após se afastar do marido, volta para Nova York ao encontro de sua família, e principalmente, de sua prima May Welland, considerada uma mulher doce e ingênua que está prestes a se casar com Newland Archer, um promissor advogado vindo de uma importante família, e que passa a cuidar do processo de divórcio de condessa Olenska, com a qual começa uma relação amorosa.

A burguesia do período abordado pelo filme estava sofrendo de uma complexa dualidade. O ideal moral do burguês da abstinência, moderação e contenção estava entrando fortemente em choque com a realidade de fartura econômica. Muitos dos capitalistas norte-americanos ganharam tanto dinheiro, e tão rápido, que a acumulação de capital por si só, como pregava a ética , deixou de ser um objetivo de vida muito animador. De que adianta ter muito dinheiro se você não pode esbanjá-lo, e assim ostentar a sua riqueza? Esse questionamento parece ter norteado a burguesia a partir de então.

Deste modo, a burguesia passou a buscar o estilo de vida da antiga dos nobres europeus. Isso se refletia na prática do ócio, seja relaxando em suas casas de campo, seja praticando esportes em grandes clubes, ou freqüentando o teatro, concertos e óperas, como fica demonstrado logo no início do filme.

Mas a principal forma que o burguês encontrou para demonstrar o seu status, foi através de sua casa. “O lar era a quintessência do mundo burguês, pois nele, e apenas nele, podiam os problemas e contradições daquela sociedade ser esquecidos ou artificialmente eliminados. Ali, e somente ali, os burgueses e mais ainda a família pequeno-burguesa podiam manter a ilusão de uma alegria harmoniosa e hierárquica, cercada pelos objetos materiais que a demonstravam e faziam-na possível”, escreve em seu livro A Era do Capital. A residência burguesa era repleta de objetos; cortinas, quadros, papéis de parede, louças, vasos, poltronas, todos muito bem ornamentados e feitos com os materiais mais caros disponíveis. O designer e a decoração da casa servia menos ao conforto e a funcionalidade e mais a expressão de status, riqueza e sucesso de seu dono.

Essa grandiosidade da mobília do interior da residência burguesa era ostentada através de suntuosos jantares, como fica representado na cena do filme em que Archer comparece a um banquete que está sendo oferecido pelo pai de sua noiva aos membros da alta sociedade novaiorquina, e enquanto adentra pela majestosa casa, vai descrevendo numa narração em off todos os objetos e mobílias pelos quais vai passando até chegar a sala de estar onde está acontecendo a recepção. É preciso entender que nessas residências a vida privada era quase inseparável da pública, pois tinham funções diplomáticas e políticas. Assim, cada palavra, gesto e expressão de um burguês, são minuciosamente calculados para se adequarem às normas de etiqueta e educação, e de modo a lhe beneficiar na conquista de contatos e influências.

E qual o papel da mulher nesta sociedade burguesa, que no filme são representadas por May e a condessa Olenska? May simboliza a mulher que segue o padrão moral que exige castidade por parte das mulheres solteiras e fidelidade por parte das casadas. Se a sociedade burguesa pregava para o indivíduo liberdade, igualdade e o direito a propriedade privada, o mesmo não acontecia no interior da estrutura familiar, ainda fortemente patriarcal, baseada na subordinação da mulher e dos filhos (e, sobretudo, das filhas). May também representa a “inocência” do mundo burguês, que na verdade, estava envolto por um forte elemento sexual expressado através das roupas numa aparente contradição entre atração e retenção. Ao mesmo tempo em que as roupas utilizadas pelo burguês cobriam completamente o seu corpo, também ressaltavam as suas formas, sobretudo nas mulheres, em seus seios e ancas, o que certamente excitava a fantasia dos homens. Afinal, o oculto é muito mais tentador do que o que está escancaradamente à mostra, não? Segundo as palavras de Hobsbawn, “o que fazia as tentações tão tentadoras era precisamente o extremismo dos padrões morais aceitos, que tornavam a queda igualmente dramática”.

Condessa Olenska, por sua vez, simboliza o que Hobsbawn chama de “a nova mulher”, que procurava quebrar esses padrões morais em busca de sua emancipação e independência. E por divergir desses padrões é que Olenska sofrerá do repúdio da alta sociedade novairoquina. Em uma sociedade em que o casamento era uma forte tradição, uma mulher divorciada como Olenska não poderia ser bem vista. E o relacionamento dela com Ascher, só ajudaria a piorar ainda mais a sua reputação. Aliás, muito mais para ela, do que para ele. Afinal, esperava-se que a moralidade das restrições sexuais e da fidelidade atingisse tanto homens quanto mulheres, mas a verdade é que a infidelidade no casamento era tolerada para o homem, desde que ele mantivesse a discrição, e essa “pulada de cerca” não colocasse em risco a sua estabilidade familiar e profissional.

E é justamente essa distinção do ideal moral daquele que é realmente praticado devido ao interesse econômico, e sobretudo, a distinção que se fazia entre o que era permitido a ambos os sexos, que expressa a hipocrisia da classe burguesa da qual cito no começo do texto, e do qual A Epoca da Inocência retrata muito bem, através de uma ótima reconstituição de época que o torna um excelente filme para ser utilizado pelos professores de História em sala de aula.

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