O que Aconteceu com o Laerte?
Esta é a pergunta que me faço todos os dias quando leio a tira dele na Folha de S. Paulo. E a única resposta a qual consigo chegar é que o verdadeiro Laerte foi raptado por alienígenas e no lugar dele colocaram um replicante. Só pode ser isto, porque esse Laerte que está aí não é o Laerte que eu conheço. Não é o Laerte que eu cresci lendo. Não é o Laerte dos Piratas do Tiête. Definitivamente não é.

Sinceramente, não aguento mais essa fase surtada dele. Eu quero o velho Laerte de volta. Sabe, eu até curto algumas tiras dessa nova fase dele, como essas que estão ilustrando o post. Algumas delas, são realmente geniais. Mas são raras diante da profusão de excelentes tiras que ele fazia antigamente. É normal que um cartunistas alterne tiras boas com tiras ruins, pois não é fácil manter a qualidade sempre lá em cima quando se publica tiras diárias, mas espera-se ao menos que o cartunista mantenha a média, algo que na minha opinião o Laerte não está mais fazendo.
Os admiradores do Laerte surtado provavelmente vão dizer que não gosto dessa nova fase dele porque não entendo suas tiras. Vou confessar, eu não entendo mesmo. A reação que tenho quando as leio é muito parecida com a da tira do Alan Sieber abaixo (que aliás, é sensacional, e não duvido nada que tenha sido uma referência a atual fase do Laerte).

No entanto, não é que me falte conhecimento para entendê-las. Creio não ser esse o caso. Fiz colegial técnico de processamento de dados, me formei em História, e agora estou cursando Letras. Também sou uma pessoa que lê bastante, e de tudo um pouco. Acredito então que possuo um arcabouço cultural suficiente para compreender essas tiras do Laerte (ou ao menos tocar esta compreensão de leve). Mas nada. Não consigo enxergar graça nenhuma nelas.
Mas aí vocês poderiam me dizer também que estas tiras não são para serem engraçadas. Concordo. A questão é que elas também não me causam nenhuma outra reação. Elas não me fazem rir, mas também não me fazem chorar. Não me fazem ter ódio, nem compaixão. Não me amedrontam nem me surpreendem. Enfim, me causam apenas indiferença. Quando leio estas tiras, geralmente penso “Humm, talvez eu tenha mais sorte com o Gonzales” e então pulo direto pra tira do Níquel Náusea (aliás, o Fernando Gonzales é ótimo exemplo de como manter o nível de qualidade constante em uma tira).

Descobri através do Inagaki que esta fase surtada do Laerte se deve a morte de seu filho (e depois o próprio Laerte acabou revelando isso em uma entrevista pra Folha). De fato, a morte de um filho é explicação mais do que plausível pra uma mudança de direção tão forte na obra de um artista. A partir disso, suas tiras se tornaram mais dionisíacas e menos apolínias. Ou seja, para abstraí-las, é preciso deixar a razão de lado e utilizar apenas suas emoções mais primitivas, num estado quase de transe (talvez um chazinho pode te ajudar nisso). Posso estar viajando, mas é como se o Laerte estivesse tentando através de suas tiras retornar a “unidade indiferenciada primordial” - pra utilizar um termo de Schopenhauer - ou “mistureba generalizada do universo” - pra utilizar um termo, bem mais divertido, do Douglas Adams (aliás, se ele fosse filósofo, daria de dez a zero no Schopenhauer). Enfim, isso tudo quer dizer que essa tiras não são pra serem compreendidas, mas sim para serem sentidas.
Mas apesar dessa pseudo-explicação-filosófica-intelectualóide do parágrafo anterior, na verdade o que eu acho que aconteceu com o Laerte é que ele perdeu o tesão. Ele não se sente mais empolgado com a “guerrilha cartunesca” como antes. Aliás, isso é algo que está acontecendo com todos os outros cartunistas de sua geração, como o Angeli e o Glauco. Todos eles agora estão “em crise”. O que é uma pena.

Tanto é que hoje em dia me sinto muito mais empolgado pela produção dessa nova geração de cartunistas (que estão longe de estarem em crise) como o Alan Sieber, André Dahmer, Arnaldo Branco, e alguns ainda nem tão “famosos” como o Claudio Mor, Thiago Cruz, Leonardo Pascoal, Pablo Mayer, Raphael Salimena, e por aí vai. Tenho certeza que se essa galera toda estivesse publicando diariamente na Folha no lugar dos “cartunistas em crise”, iriam aproveitar o espaço de maneira primorosa.
Mas voltando ao Laerte, talvez eu esteja sendo chato demais e até passe algum dia a gostar dessa nova fase dele. Devo reconhecer que ele está de fato explorando a linguagem das tiras diárias no seu limite. E todo artista que faz esse experimentalismo, acaba sofrendo uma certa rejeição. Mas bem que ele podia dar uma pausa e quem sabe trazer a sua trupe de personagens de volta. Seria bem legal poder ver o Capitão e seus Piratas navegando novamente pelas águas putrefatas do Tietê.


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